26/03/2015

Tocaram as campainhas, II

A vistoria pela internet do surf ™ continua a oferecer-me interessantes ideias, reflexões e constatações sobre o estado do mundo da competição e da instituição (empresa? associação? whatever!) que o rege. O primeiro artigo desta nova rubrica focou-se na antevisão do Quiksilver/Roxy Pro Gold Coast e nas actividades que a WSL ia, ou não, oferecer ao surfista e ao espectador de surf. No fim de contas não houve nada a destacar-se e a etapa de Snapper foi uma seca (ou quase).

Infelizmente para nós espectadores, e para os surfistas da elite, parece que a seca vai continuar, pelo menos que toca à qualidade das ondas que vamos ter à disposição na praia rainha das provas de surf, Bells Beach. É que parece que vai acontecer exactamente a mesma coisa que aconteceu na Goldie, como nos conta o Swellnet:

"(...) The last couple of weeks have seen many fun days across Bells and Winki, but as we move into the middle of next week (the waiting period begins on Wednesday), an unfavourable atmospheric blocking pattern is forecast to develop. What this means is that we'll likely see a suppression of Southern Ocean frontal activity along with a 'blocking' high pressure moving in across the south of the country.

 This doesn't bode well for the Rip Curl Pro as classic Surf Coast conditions are the result of strong polar frontal systems pushing one after the other up and into Victoria (...)".

Quem não se parece importar muito com isso - às tantas ainda agradece porque pode culpar o mar e não o equipamento - é Kelly Slater que, diz a Tracks Mag, vai continuar a experimentar as Tomo Surfboards, aquelas pranchas de aspecto esquisito feitas pelo australiano Daniel Thompson:

"(...) Meanwhile Daniel Thompson told Tracks he’s made Kelly a batch of boards but couldn’t elaborate further. 

“Mate, it’s very early days with KS. I’ve been asked to build him a couple boards to play with but there’s no certainties to if or when he may choose to ride one in an event as he is also experimenting with boards from other shapers.” (...)"

Isto reveste-se de importância não só por ser o equipamento que Slater poderá usar em Bells como por dar força ao rumor de que o onze vezes campeão mundial está próximo de adquirir parte da Firewire, rumor esse que ganhou força nos últimos dias graças ao inevitável BeachGrit:

"(...) On Thursday, April 2, on exactly the same day the prophet Jesus Christ ate his last supper (Maundy Thursday) almost 2000 years previous, Kelly Slater and, one suspects, some kind of consortium, will take full control of Firewire Surfboards. A few more signatures with a deadline of April 2, y’see, and the deal is sealed. (...)"

Estás à espera de que fale de gajas? Estão já em baixo! Esta gaja! Courtney Conlogue! Foto: WSL

Saltemos para o outro lado da sebe e mergulhemos no mundo especulativo do que se passa na World Surf League e dos número com que a instituição (organização? agregado de pessoas?) anda a tentar vender os seus eventos e espaços publicitários. O freguês que escolha o que quer ler que há muitas opções.

Temos, para abrir o apetite, a dureza dos números e dos factos do Stu Nettle no Swellnet que nos dizem que a WSL vai receber mais dinheiro da cidade da Gold Coast à conta do Quiksilver e Roxy Pro. Não será isso bom, pensam vocês? Não, se essa decisão tiver sido tomada após uma quasi-chantagem da WSL que, ainda por cima, terá apresentado número irrealistas para o impacto do seus eventos na região:

"(...) This year the Quiksilver and Roxy Pros received $45,000 from the Queensland State Government via Tourism and Events Queensland (TEQ). Next year they were slated to receive $50,000 however it now appears this amount will be doubled to $100,000. Not a significant amount in the scope of the tour but it's worth pondering the Council's justification for paying.

In a council report, the GCCC Events Advisory Commitee details ongoing negotiations in order to secure the event for the City. "Although a smaller amount is preferred," the report states, "the event is unique in the benefits it provides to the City as a surfing destination and the risk of losing it is significant."

When asked, a spokesperson for the GCCC couldn't identify why it was in risk of losing the Quiksilver Pro.

The report detailed what TEQ had received in exchange for their financial support. Those details were supplied by the WSL who claim the contests generate "approximately $19 million in tangible media value for Tourism and Events Queensland". More than $10 million of the "tangible" amount - $10,131,631 in fact - was attributed to "Social Media Buzz Value. (...)"

Ainda neste mesmo capítulo, Craig Braithwhite no TheFreeRideVoice não se escusa a acusações à ASP e WSL pela forma como foi tratado quando acompanhou alguns eventos do World Tour e tentou entrevistar os seus protagonistas:

"(...) In 2013-‘14 the ASP media managers for the eight events I attended – with an official media pass – heavily guarded the surfers more than at any point I’ve covered professional surfing. In fact out of those events I went to I was turned down on all twelve official requests to talk to the surfers. I was told if I want to talk, there were the post heat interviews in the media scrums with the winners of each heat. At one point in Bali, I was actually told by the then ASP, the publication I was writing for just isn’t big enough to warrant the surfer’s time. (...)"

E, por último neste capítulo da infâmia do grupo de Paul Speaker, temos novamente o Beachgrit que, com ajuda do podcast SurfSplendor, conseguiu ligar com sucesso a WSL a Monica Lewinsky, a jovem que foi apanhada com a boca no trombone do democrata Bill Clinton quando este era presidente da nação norte-americana.

Permitam-me agora regressar ao texto de Stu Nettle que termina com uma nota preocupante sobre o circuito mundial feminino da WSL, partindo de um exemplo à vista de todos:

"(...) At the beginning of last year the WSL put the Maui Pro back on Women's tour after a three year hiatus. Scheduled for November it took until August to find a sponsor when US shopping chain Target came aboard as presenting sponsor. It was the first time they'd sponsored a surfing event. 

Yet despite Target's number one female athlete Carissa Moore winning the event Target are yet to commit sponsorship second time around. 

The Women's tour has nine competitions this year, four of them have no sponsor as yet: Rio, Fiji, Trestles, and Maui. The rejuvenation of the Women's tour is yet to receive commercial blessing. (...)"

E como nem tudo pode ser mau e não quero ser acusado de estar a compactuar com a Cruzada Anti-WSL, destaquem-se duas passagens da entrevista da revista australiana Surfing Life à californiana Courtney Conlogue, que, a serem verdade, parecem mostrar um esforço sincero da WSL em fazer um Tour melhor para as meninas:

"(...)The WSL asked us what locations we wanted on tour, and the three locations I put on my list are now on tour – Trestles, Fiji and Maui. (...)"

"(...) [sic] I love WSL. People can say what they want but as a surfer, and a fan, it’s better. (...)"

Fecho com o já referido texto do TheFreeRideVoice e com um parágrafo que me é muito querido e com o qual não consigo deixar de concordar:

"(...)While judges are inexplicably giving 5.83’s for Slater’s 360 carves straight into a barrel with a full power rotation cutback upon exit of said barrel and finishing with a lip tap. Meanwhile Freddy P’s backhand lip taps and whacks down the line, rinse and repeat for 30-minutes to ad nauseam are rewarded with the heat win(...).

Até à próxima!

(HEADSPACE): Shaun Tomson

(HEADSPACE): Shaun Tomson from The Inertia on Vimeo.

24/03/2015

Tirem um minuto do vosso dia para...

...admirar esta fotografia. Tudo sobre ela, mas sobretudo o estilo do Craig Anderson. Um minuto. Carreguem na fotografia para a expandir. Fotografia do Morgan Maassen, publicada no seu facebook.


Oop

19/03/2015

Por que razão a amargura, mate?

Pode ser por lá ter nascido o surf moderno, o IPS e até a ASP. Pode ainda ser à conta da shortboard revolution, de Bells Beach ou de qualquer outro motivo histórico, técnico, demográfico ou de qualquer área outra do surf. Mas eu não sei qual é esse motivo e a verdade é que a arrogância sobranceira raramente tem uma explicação, quanto mais uma explicação lógica. Diga-se apenas que os australianos acreditam ser a ponta da lança do surf mundial. 

O assunto é extenso mas visto estar a chegar a níveis demasiado evidentes nos últimos tempos (Hi, Gabs!), foquemo-nos na ASP e na sua história recente. Mas antes, uma breve lição de História (na qual, por motivos que já vão entender, nos vamos focar nos homens). 

Down Under dominou os primeiros 10 anos de circuito (IPS) num ciclo que foi apenas interrompido por Tom Curren. O pós-Curren foi uma misturada mas a Austrália não deixou de ser o país dominador com quatro vitórias em cinco possíveis até à chegada do alien. Daí para a frente a Down Under foi largamente humilhada pelos americanos. Quão dominada? Permitam-me ignorar a aberração que é o Havaí ser considerado terra própria para aqui escrever que desde o primeiro título de Slater em 1992 e até 2014, ou seja, em 23 títulos possíveis, a Austrália ganhou cinco. 5. Os E.U.A. ganharam 17. 17!

Estou a cobrir um período temporal demasiado longo? Vamos aos últimos 10 anos. 6-4 para o país do Kennedy. Últimos 5? Aí têm caso, 2-2...mas os dois americanos foram do Kelly e dá para falar de apenas um par dos 11 que ele tem?

Isto tudo para dizer que se há alguém que tem motivos para, recentemente, se sentir aborrecido, humilhado, vilipendiado ou derrotado, são os americanos. Os queridos americanos. Que têm o Kelly Slater, o super atleta, cada vez menos super, mais próximo da reforma, que dominou o desporto de forma tão maravilhosa; que não têm ninguém como o Mick Fanning ou Joel Parkinson ou o Julian Wilson para disputar títulos mundiais nos próximos tempos (sorry, Kolohe!); que dominam o corporate mas não têm surfistas. 

E sabem o que fizeram os americanos acerca da conquista do título mundial pelo Gabriel Medina? Rigorosamente nada. Não foram chorar para os seus sites. Não foram fazer troça do mau inglês. Não ficaram ansiosos pela próxima falha do brasileiro para o atacar. Os americanos não fizeram nada.

Estou a mentir. Na verdade fizeram. O Gabriel apareceu numa capa da Surfing Magazine em 2013. Foi número 1 dos Hot 100. Foi aplaudido. Comedidamente, é certo (afinal, ele não é gringo...), mas é respeitado como só um fã americano de desporto - pragmático, pouco vinculado, reconhecido - parece conseguir ser. 

Na Austrália, o caso parece ser outro. O título de Medina parece ter sido uma afronta pessoal a todo o australiano e seu koala ou canguru. Bom, talvez não a todos: a Surfing Life, talvez por ter Nick Carroll no comando, vê que Medina é o futuro. É um brasileiro, é certo, mas é um surfista. É um campeão mundial. É O campeão mundial. Onde estão Julian? Jack? Mick, Parko e Taj são velhos demais para apregoar.

Mas, em (antepen)última instância, tudo isto que escrevi não importa. E o que importa vem agora.

Considero racismo uma palavra demasiado forte para descrever alguns dos comportamentos do media australianos nos últimos tempos e, ainda assim, aí anda a palavra a ser usada gratuitamente. Prefiro denotar uma certa acidez ou amargura nas linhas da Tracks e da Stab. Um certo desprezo. Como se o título de Medina valesse menos ou o brasileiro precisasse de prestar contas a alguém. 

Não precisa.

Medina não esteve bem em Snapper, isso já se sabe. Mas o assunto não foi nada mais que uma trivialidade, um momento de entretenimento num evento que rumava pecaminosamente para o estatuto de pior de sempre. Só a Surfing Life foi capaz de não se ver presa nos preconceitos e reconhecer isso. Outros optaram por abraçar a âncora do sentimento mais fácil. Sim, estou a falar para ti, Tracks Mag.  

A Tracks, a Stab, outros, optaram pelo lucro rápido com uma tempestade num copo de água, ignorando a real e verdadeira que a Surfing Life soube destacar no fim do evento. Com classe ainda por cima.

Só é racismo se houver quem o aponte como isso. Que o expresse e verbalize assim. Que o cubra assim. Que o destaque assim. E, para esses, a vitória do Filipe Toledo foi o (segundo) melhor castigo possível.

Venham mais. Foto: WSL