28/07/2015

Tocaram as campainhas: edição "tubarão ataca Mick Fanning"

Eu sei que demorou mas aqui estão as novas campainhas, totalmente dedicadas ao assunto que ainda é o do momento. O atraso deve-se a...férias.

Se não estiveram debaixo de uma pedra, numa caverna ou de férias, sabem com certeza que o 3x campeão do Mundo Mick Fanning foi atacado por um tubarão na final do J-Bay Open, sexta etapa do WCT 2015, final essa onde estava também o Julian Wilson.

Ora, se estiveram nalguma destas situações (como eu estava na altura..) e estão a ser absolutamente surpreendidos, bom, isto foi o que aconteceu:



Se preferirem em fotografias, aqui vai um belíssimo retrato do incidente, cortesia da Surfing Magazine. Se as palavras forem a vossa cena, Sean Doherty escreveu tudo para o Coastal Watch. Se quiserem uma mistura de fotografias, texto e vídeo, este resumo da Surfing Life dá-vos isso mesmo.

O potencial para tragédia é tanto que eu não consigo conceber como é que não deu nisso. Felizmente, ambos Mick Fanning e Julian Wilson estão fisicamente bem, embora o evento ainda deva estar a pesar no seu psicológico. É que viram as suas reacção logo a seguir? E as do Kelly? As lágrimas? Confesso que até eu, a milhares de quilómetros da melhor direita do planeta, me emocionei. Se não viram, aqui vão várias reacções:





Nos dias seguintes, foram-se sabendo mais reacções, como a de Gabriel Medina, Taj Burrow e a da mãe de Mick, que assistiu a tudo em directo da Austrália.

A notícia esteve em todo o lado e não me recordo de alguma vez a WSL (ou ASP) ter estado presente nas notícias de forma tão "massiva" como nesta ocasição...e não é para menos, naturalmente. A CNN deu a notícia, a NBC deu a notícia, a BBC, o Público, a Globo, até sites de fofocas como o Hollywood Life, enfim, todos deram a notícia e o nome de Mick Fanning abriu noticiários e fez capas em todo o planeta.

Naturalmente, os sites de surf não foram excepção e também reagiram, é só procurarem (a da Surfer Mag, como já é hábito, é das melhores notícias). A minha reacção preferida é a da What Youth, que pôs em texto exactamente o que senti quando vi o ataque.

E, saindo novamente do surf, deixem-me dizer-vos que a atriz sul-africana Charlize Theron também teve uma palavra a dizer!

O resultado disto tudo? O Google diz que Fanning ficou mais popular que Obama. Inacreditável? Nem por isso. Só vos digo que nada como uma história de tubarões para fazer disparar os page views de um website. E, já agora, a presença do australiano nas redes sociais...explodiu!

Mas, mais importante que a reacção dos media, é o estado de alma na altura dos dois surfistas que estavam na água. Pouco depois do incidente e do calor do momento, no seu instagram, Mick Fanning abriu a alma, com uma belíssima fotografia em que abraça Julian Wilson. E já que vão ao instagram, espreitem as páginas da maior parte dos surfistas deste planeta. É nestes momentos que se percebe quão unidos são os surfistas (mas não nos chamem tribo, please).

E, já que toco no nome de Wilson, quão corajoso é preciso ser para ir na direcção de um amigo quando este está a ser atacado por um tubarão? Julian ganhou fãs no Mundo todo e o estatuto de herói. Resultado? A típica fofoquice, desde o que ganha até à sua namorada, cortesia do Daily Mail no Reino Unido. O artigo (dor de garganta) é tão absurdo que vale a pena abrir só para registar o que acontece quando o surf chega mesmo, mesmo, MESMO a todo o lado.

A atenção mediática foi tão grande que patrocinadores e assessoria de Fanning e Wilson se juntaram para, logo à chegada de ambos à Austrália (e eles viajaram juntos) dar uma e apenas uma entrevista/conferência de imprensa sobre o assunto (é importante encerrar o assunto rapidamente!), cujo resumo podem ver aqui. Se quiserem apenas ler sobre o assunto, a Surfing Life deve ser o vosso destino mas não deixem de passar os olhos no relato da Tracks Mag.

Uma coisa que foi evidente nesta conferência, para além da quantidade de câmeras presentes? Bom, os logos dos patrocinadores de ambos os surfistas, sobretudo o da Red Bull, que, percebe-se, talvez por patrocinar os dois, parece ter sido quem mais força (e logística!) teve na organização da conferência. A verdade é que a sua presença faz sentido (oportunidade única de exibir a marca através de product placement! Capistalismo, baby!), mas não deixa de ser triste. 

Os meios de comunicação mainstream, que por motivos óbvios não têm qualquer tipo de pudor em abordar as marcas de surf, fizeram-nos à conta deste product placement... digamos... Descarado. Eis o que tem a dizer sobre isto o Sidney Morning Herald, o Mashable , o New Zealand Herald e, até, o Business Insider. A oportunidade era imensa e a Red Bul aproveitou-a. Resultou? Claro, não só a marca apareceu em todo o lado por causa dos testemunhos dos surfistas como por causa da própria conferência. Nas notícias por dois motivos! O departamento de marketing estará contente, já alguns dos consumidores (ou possíveis consumidores) não sei. Tirem as vossas conclusões no link do BI. 

Mas se os patrocinadores não reagiram bem, a WSL, há que dizer, foi brilhante. Talvez o melhor momento de sempre da instituição desde que foi fundada. Desde o Joe Turpel a comentar o ataque à equipa de salvamento a apanhar Fanning e Wilson, passando pelo Ronnie Blakey a entrevistar os intervenientes até ao acompanhar da carrinha que trouxe os surfistas de volta ao palanque, a empresa teve uma atitude exemplar. Soube e está a saber gerir o incidente com tacto, tanto na forma como o cobriu como na forma como o está a "vender" e mostrar, aproveitando o momento mediático mas contextualizando-o num cenário muito maior do que a prova de Jeffrey's Bay (um exemplo disto, o cuidado que tiveram em compilar um artigo sobre quem é o Mick Fanning, artigo claramente apontado a quem não percebe patavina sobre surf, WSL ou Mick Fanning).

Quando o Mundo parecia estar prestes a caiar, um grupo de pessoas soube meter o braço por baixo. Parabéns, WSL.

Até o Paul Speaker, CEO da WSL, no seu comunicado, esteve bem! Bolas! Até o assunto tubarões soube gerir!

"(...) We will take time to review this situation in depth and see what we can learn. In the coming days, we'll be having discussions with our athletes, various experts, and with our communities on how to best move forward. We will continue to review various procedures regarding shark safety, emerging research and technologies as well as event site selection. We will be proactive. 

 We do want to emphasize that we respect sharks as remarkable animals. Our sport's playing field is the ocean and the WSL is an advocate of healthy oceans. Apex predators, like sharks, are a part of any healthy ecosystem and we very much understand that our events take place in their home. (...)".

E, já que toco no assunto tubarões, bem, mergulhemos nele. A primeira coisa a dizer é que há quem acredite que não foi um ataque de tubarão. Se ouviram bem as declarações do Kelly no vídeo lá de cima, viram que ele teorizou a possibilidade do tubarão ter ficado preso no leash do Fanning. O especialista em tubarões Andy Casagrande disse à revista Outside que acredita ser isto o que sucedeu.

"(...) “I’ve seen this time and time again working with sharks,” says Casagrande. “When they touch a rope—tethered to a cage you’re in or an anchor line—they react immediately. It’s like someone pouring cold water down your back. You want to get away.” 

Casagrande thinks Fanning’s leash touched the shark’s face or gills and the fish thrashed violently to untangle itself, likely bumping Fanning off his board in the process. “The fact that is, Mick’s leash probably saved him life or limb,” Casagrande says. “If [the shark] had circled around maybe one more time or adjusted, even an investigative bite could have gotten him in the back of the thigh, the femoral artery.” (...)

Furthermore, the fact that the shark aborted its encounter after hitting Fanning’s leash proves to Casagrande that it was likely just examining Fanning. “The reality is, if the shark is in true predation mode it wouldn’t have cared about being tangled by a leash,” Casagrande says. “When they rocket up from the depths, they’re committed.” (...)".

Por outro lado, como explica ao Surfline George Burgess, curador do International Shark File Attack, de acordo com a descrição oficial do que é um ataque, o que aconteceu foi mesmo um ataque:

"(...) "Well, it is indeed an attack, as you suggest. By all appearances, it was a situation where a White shark was coming up for an investigation of the situation. The fact that there was no bite suggests that the animal was simply there to check it out, to see what was going on. Whether the shark simply decided “not for me” and avoided its attack, or the shark was simply giving it a quick look to see what it was up there, we will never know.  We can’t get into the heads of these things. But what we can say that from the International Shark Attack File’s view, because contact was in fact made — minimally, with the board — it will go in as an official attack. Even though, in this case, the reality was no actual contact with the human." (...)"

Tenha ou não sido um ataque, e de acordo com o que disse à National Geographic um outro especialista em tubarões, Greg Skomal do Massachusetts Division Of Marine Fisheries, Fanning fez tudo certo para evitar o pior:

"(...) “The shark seemed pretty intent on hitting the board, which probably worked in the surfer's favor,” says Skomal. “He got away, unharmed, which is pretty incredible.” 

Fanning also appeared to stay calm and “did everything right” during the brief attack, says Skomal. “It looked like he put the board between him and the shark, he avoided the mouth, he struck the shark, and then moved away.” (...)".

Quem estava também na água e teve de nadar 50 metros até à areia (!!!), naquele que talvez tenha sido o único momento menos positivo da empresa, era o fotógrafo da WSL Kelly Cestari, que contou ao site do seu empregador como foi a sua visão do acontecimento (mais um bom exemplo do cuidado da WSL, verdade seja dita):

"(...) "Julian (Wilson) had his first wave and it was probably two or three minutes after that everything started happening. From what I remember I saw the initial splash, but because I was in the water I had a surfing "eye" from what I was seeing. So I think there had been a wave and I was looking through it and I saw the initial splash and Mick spin around and then I saw the fin slap at him. It took a couple seconds for my brain to engage and it was like, "Ok what is going on?" As Giggs, the beach commentator, started screaming, "GET TO MICK!" I think I spun around to the boat and yelled, "Go get Mick, Go get Mick." The boats and the jetskis had already taken off and were in full speed, which is their job, to get the guy in trouble." (...)

(...) But the boats were gone so I needed to get in. But I actually hung around for like maybe a minute thinking the jetskis would come back to me. Once I realized they were going in, it was time for me to swim in. (...)"

E depois de tudo isto? O que sobra? Parece idiota mas a resposta é o futuro. E há já quem tenha escrito sobre ele. Zach Weisberg do The Inertia lança aqui algumas questões:

"(...) So where to from here? How will the WSL approach future contests? With shark nets? With sharkproof wetsuits? Will we never see another heat at Jeffreys Bay again? I wouldn’t be surprised if the WSL answers yes to all those questions. After all, the collective surf world’s nightmare was just broadcast live across the planet. We almost saw one of surfing’s greats die in front of us. (...)".

Também Adam Gibson, na revista Tracks, destaca algumas teorias com que se cruzou, voltando ainda à aparentemente eterna questão sobre o abate de tubarões. Gibson cita uma peça do Beach Grit (só faltava este) cuja leitura é altamente recomendável. A citação final é particularmente forte:

"(...) “…People who wish to manage their own environment — even for recreational purposes such as swimming, surfing and diving — are not automatically on the wrong side. If you oppose culling, that’s fine. Knock yourself out. Go swimming with them if you like. But spare me the faux sympathy next time someone is killed. These deaths are not necessary.".

O mesmo Gibson, noutra peça, já na ressaca de tudo o que aconteceu, pergunta-se se Fanning é o melhor surfista de sempre. Apesar de rebuscada, a teoria até tem pés e cabeça.

"(...) Perhaps it’s a hangover from his wilder “Eugene” days, but I still don’t think the wider populace, surfing or otherwise, has given him the credit for just how good he is. It’s a funny thing that it has taken a shark attack to bring him to mass attention but it needs to be said that he is far more than that. He ain’t just some mid-field chancer who dodged a shark-shaped bullet. Indeed, he is now, alongside Slater, a true surfing statesman. A good speaker and role model who treats people with respect and humility. He is someone who deserves, indeed, to be regarded as one of Australia’s greatest ever sportspeople – and, in my opinion, the world’s best ever surfer… (...)"

Para terminar... E o Mick? E o Julian? O corpo e a matéria? Não a persona. Fisicamente, como já disse, estão em forma. Tal como se espera que estejam em época alta de competições. Mas e psicologicamente? Quais os efeitos desta brincadeira? A Surfing Life falou com um psicólogo e eu deixo-vos aqui um excerto que espero convencer-vos a ler o resto:

"(...) Mick seems pretty composed when he gets in the boat. What would you say his reaction means, in terms of recovery from the event? 

Well, it might help to paint a bit of a picture of what he’s just been through psychologically, first. Because to be honest, I was amazed that he could even speak. 

 It’s important to note that it was a highly adrenalised day for Mick already. He surfed multiple heats and so his sympathetic nervous system would have been in and out of “fight or flight” mode all day. Then he’s sitting there, completely focused on what his next move is going to be as an athlete, and then the moment he’s realised what’s going on, that he’s basically facing his mortality, his fight or flight response would immediately supercharge, sending a massive adrenaline surge through his entire system, and in his mind there’s nothing else on earth going on other than what is going on right then and there. He’s literally fighting for his life. Then the water patrol arrive and create physical safety, and once everyone realises no harm to Mick or Julian, the activation system begins to drop away from the redline, and then often a flood of mixed emotions begin to pour in. (...)".

Agora, let's get personal. Sabendo que ambos estão bem fisicamente, a minha preocupação é saber se vão voltar à água. São dois dos surfistas mais queridos do planeta e dos meus preferidos também. Na conferência de imprensa à chegada à Austrália, Fanning e Wilson afirmaram ter a certeza de que iam voltar a surfar. Não admira, tendo em conta que é a sua profissão, hobby e tudo mais, mas... Quem sabe? E, mesmo que voltem, quem garante que serão os mesmos? E voltarão a competir? É demasiado pensar assim? Acham que ver a vossa vida fugir-vos pelos dedos não é capaz de vos fazer dar uma volta de 180 graus?

É inevitável que caia naquele cliché: só o futuro o dirá. Mas já sinais positivos: o Mick já foi ao mar e diz que "mal pode esperar por Teahupoo".




E, bom, voltando à insensibilidade necessária para se ser jornalista, quem sai a "ganhar" com isto tudo é Adriano de Souza, Quem ganhasse a final de Jeffrey's Bay, seria o novo camisola amarela. Como se decidiu (e bem!) que a final não voltaria à água, Fanning e Wilson ficaram com o lugar mínimo da ronda (2º), dividiram o prize money e deixam Mineiro a liderar à entrada de Teahupoo. 

Há muito que o título mundial não estava tão disputado, não é verdade?

27/07/2015

2:38: que raio é isto!?



Clay Marzo "808 Liv'n" from Peter Labrador on Vimeo.
A short featuring Clay Marzo by Peter Labrador // @peterlabrador // Maui, Hawaii 2015 copyright. Peter Labrador Visuals

23/07/2015

Motion

Motion from Morgan Maassen on Vimeo.
Morgan Maassen
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www.morganmaassen.com

motion clients: Audi, Corona, Samsung, Volvo, Delta Airlines, Peugeot, NBC Universal, Monster Energy, Quiksilver, Patagonia, Billabong, prAna, Nixon, Roxy, Hurley, Teen Vogue, National Geographic, United Nations

shot on Red Dragon & Epic
music: "After Gold" by Kelpe